A Doença das Startups Brasileiras
Postado em 15 de fevereiro de 2012 por Guilherme LitoDia após dia vemos mais eventos e grupos sendo formados para discutir “empreendedorismo”, “startups” e derivados.
Alguns são mais técnicos, outros esbanjam um perfil mais “motivador”/auto-ajuda empresarial, muitos tem grande valor, mas a grande maioria está caindo numa mesmice incrível, que na minha visão é um tiro no pé dessa comunidade.
Basicamente o que está acontecendo é que o ecossistema empreendedor online brasileiro está se tornando filosófico, teórico, cheio de termos bonitos, discussões muito (ir)relevantes e pouquíssima ação útil. Em poucas palavras, um sistema paralisado. Tendo em vista o ambiente cada vez mais dinâmico no qual vivemos e o “mercado híper competitivo”, esse nosso ritmo Socrático é, na minha opinião, a maior doença que aflige nosso mercado hoje. A chamei de Socratite.
Dividi em 2 pontos o que acho que é mais crítico e que nós, da comunidade empreendedora online do Brasil (que é apenas uma pequena parcela do total de empreendedores) temos que ficar atentos:
1. Saber é fazer
“Suas atitudes falam tão alto que eu não ouço o que vc diz”
Ralph Emerson
Lean Startup, Customer Development, Agile Development, Business model. É lindo encher a boca para falar isso, né? É glamuroso chegar para os amigos no bar e falar que está desenvolvendo seu canvas para embarcar num processo de cust dev e depois fazer iterações no modelo. Mas….
No final do dia, o que você fez de útil com esses termos? O conceito é legal, os exercícios, imprescindíveis, mas gasta-se mais tempo com as ferramentas do que empreendendo de fato! Já vi inúmeros empreendedores mudarem seus negócios (ou modelo de negócios) 30 vezes antes mesmo de falar com um cliente. Tem nome para isso? Claro! É lindo. Eles “pivotam” sem nem conversar com um cliente, só porque a mãe falou que não achava legal. Aí não tem teoria que dê certo, né?
2. A vida não é um mar de rosas
Ou como diria minha mãe, “Quer moleza? Senta no pudim!”
Entenda o seguinte:
a. Por melhor que seja sua ideia, ela não vale um centavo. É isso mesmo, ideias são totalmente sem valor enquanto não são nada concreto. De ideias e boas intenções, o mundo está cheio, mas e daí?!
b. Empreender não é ter o salário garantido por um investidor. Doa quanto doer, o mundo nunca se propôs a ser justo, portanto se você não tem dinheiro para sustentar os primeiros dias de sua empresa, empreenda enquanto ainda empregado, tenha uma ideia mais barata de negócio que vai permitir que essa outra aconteça, encontre muitos parceiros de negócio que te ajudarão, consiga lançar algo amanhã, etc. Mas não ande por aí choramingando que investidor não quer te dar dinheiro. Nem ele nem o negócio dele tem a ver com sua situação. Como diriam por aí. “Quem quer rir, tem que fazer rir.”
É claro que dinheiro é importante e é claro que investidor tem seu papel, mas ficar em casa planejando ou trocando sua estratégia esperando um investidor chegar é a pior coisa (e mais cara) que você pode fazer. Ou seja, aja como se a empresa já existisse antes de ganhar salário de investidor e vê o que acontece.
c. TEM QUE RALAR. Você escolhe seu horário de trabalho, salário, manda e desmanda, legal, né?! Mas tem que ralar o triplo. Aceite esse fato. E rale em coisas úteis. Lembre-se, quanto mais próxima do cliente for sua ação, mais provável sua relevância.
Resumindo, se você não tem nada, não ache que tem valor, assuma a responsabilidade por fazer as coisas acontecerem, independente da sua situação ou desista logo e trabalhe, trabalhe e trabalhe!
Essa questão de tecnologia ser escalável, de vermos pessoas milionárias aos 20 e poucos e todo o hype feito em cima de startups fez com que nós acreditemos que somos maiores do que de fato somos. É, de fato, um ambiente muito sedutor! Fala-se de muito dinheiro, de vida boa, é descontraído, tem cerveja para todo lado, mas lembre que no Brasil são pouquíssimos os casos de sucesso, as Startups falham e falham feio e recorrentemente e, apesar de estar escrito sócio-diretor no seu cartão, se você não tem nada, você não é sócio-diretor de nada!
Surpresa!
Como sempre, gostamos de dar bons exemplos para inspirar e basicamente mostrar aonde é o gol, para onde deveríamos estar chutando e não apenas dar uma de crítico.
Hoje vou mostrar dois casos de empreendedorismo contemporâneo na sua essência de redução de riscos e agilidade na ação para maximizar as chances de acerto, que é basicamente o que a maioria dos métodos modernos pregam (com nomes mais bonitos). Vale lembrar que essa galera nunca leu as nossas teorias e nem se beneficiam de frameworks ou processos de desenvolvimento de negócios:
1. Vegetê – Hamburger de Aveia
Esse exemplo é simplesmente LINDO. Estava curtindo um show na Lapa na quarta à noite com amigos quando encontrei esse casal:
Quer abrir um restaurante de sanduíches vegetarianos muito legal num lugar no Rio? Ótimo! Por onde você começará? Plano de negócios? Projeções financeiras? Procurar um local “bom e barato” para alugar? Não!
Você vai fazer uma logo interessante, colar num pedaço de pau, pegar um isopor, botar 10 sanduíches de apenas 2 sabores diferentes dentro e rodar a cidade tentando vender!
Além de gente boníssimas, esses dois mostram o que é botar o pé no chão e, de fato EMPREENDER, no verdadeiro sentido da palavra, que é ligado a ação.
Um case já mencionado por aqui que seguiu um caminho parecido é o Hareburger, que já está até com uma lojinha no Arpoador, Rio de Janeiro!
2. Ateliê Inbox
Marianne estava se formando em arquitetura quando resolveu fazer um e-commerce para vender produtos artesanais que fazia com a mãe. Quando o projeto final da faculdade apertou sua agenda, desistiu da loja online mas manteve o blog para “continuar dando dicas de arquitetura, decoração, diy (faça você mesmo), etc. Tudo começou despretensiosamente, como um hobby, e hoje em dia já virou site de fato, com alguns projetos bem maneiros de decoração e consultoria, além de várias parcerias.”
O e-commerce foi feito pelo irmão que conciliou o trabalho em uma grande empresa com o desenvolvimento e lançou a primeira versão em…. chuta!
2 meses! E isso porque eles não ouviram falar de lean, MVP (mínimo produto viável) e etc, ele tinha um emprego full-time e morava em outro estado..
Boa!! Mais um ótimo exemplo de alguém que fala menos e faz mais! E digo mais, fui proibido de divulgar, mas ela está prestes a dar mais um grande passo para frente. E tudo isso devido à dedicação e trabalho sério, a baixíssimo custo.
Conclusão:
Sim, há negócios que demoram mais e outros que demoram menos, há negócios mais caros e mais baratos, etc, etc. Agora você pode interpretar o que leu de duas formas: (1) esse cara é um idiota que acha que entende do meu negócio ou (2) tá, eu estou ralando para ser enxuto e agir, mas será que consigo simplificar um pouco mais, sair das teorias e discussões e botar algo na RUA hoje?
Vamo que vamo galera! Corte feature do seu software, tira módulo do sistema, faz uma barraquinha ao invés de loja, fan page ao invés de site, powerpoint ao invés de protótipo, vende algo que ainda não existe, encontre uma solução e saia do paradigma do “preciso de investidor!”
Vale uma observação: é óbvio que existe muita gente falando coisa boa online, usando as comunidades para se educar, dar feedback para os outros, testar seus conceitos de uma forma útil, etc, mas uma boa parcela precisa ler isso, por isso compartilhe!
Saiam do prédio!!! Estamos de olho em vocês, eim!
Abs e até a próxima!
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