O modelo das ONGs faliu… (o da sua empresa também!)
Postado em 14 de setembro de 2011 por Guilherme LitoHoje exploramos por que todos tem que repensar a forma como fazem negócios (principalmente organizações sem fins lucrativos). O mundo está mudando, o comportamento do consumidor também, e tudo culminará no fim do terceiro setor e dos negócios como os conhecemos.
Há anos atrás, definimos regras pelas quais tocaríamos os nossos negócios, acreditando que o mercado competitivo, maximização de lucros e a execução de soluções paleativas para os problemas “periféricos” que geraríamos, fariam de nós um mundo saudável e feliz.
Doce ilusão…
Problemas:
1. O mercado competitivo - gerou “grandes avanços” (até isso é discutível) no nosso mundo, mas se tornou a melhor justificativa para demissões em massa, poluição nociva inclusive ao ser humano e empresas se mudando para baratear a mão de obra (leia-se tirar emprego de famílias que dependiam dessas empresas para escravizar crianças na Tailândia que executam o mesmo por 30 vezes a menos).
2. A maximização de lucros – praticamente obriga que o empresário trate da pior forma possível o seu funcionário, para que ele possa ter alguma margem. Alguns dizem: “ah, mas isso acelera o desenvolvimento! É como se fosse uma corrida para atender o cliente cada vez melhor e mais barato.” Bom, sim e não. Um bom exemplo é o de lançamento de produtos. A maioria das grandes empresas tem versões mais modernas do seu produto, mas não comercializam porque eles lucrarão mais vendendo o modelo velho por mais tempo. Ou seja, por mais que digam que a competitividade e grana que ganhamos ao trabalhar aumente a inovação, na verdade FREIA! Fora isso, no último post falei e agora repito, incentivos financeiros NÃO FUNCIONAM mais para o mundo atual, cujos problemas são mais complexos do que ver quem consegue produzir mais carros por mês. Por fim, para obter o maior lucro possível, o produto torna-se inacessível para parte da população que poderia consumí-lo, mas nesse modelo não podem. Lembrando que o produto pode ser água potável ou comida, portanto respostas como “azar deles” não cabem.
3. Soluções paliativas não funcionam! Infelizmente, as ONGs (e demais instituições sem fins lucrativos) fazem parte do problema e não da solução dos problemas do mundo. Elas tem características muito frágeis, pouca liberdade, um sistema de incentivos incoerente e uma ótima desculpa para as empresas continuarem ferrando com o mundo, afinal a responsabilidade de arrumá-lo é das ONGs.
Mas me explica direito, por que o sistema de ONGs não funciona?
Por melhor que sejam as suas intenções no mundo de hoje, dinheiro será importante, pois é o que todos consideram “valor”. Em uma empresa, sua receita aumenta se você atende melhor o cliente, lança novos produtos, etc. No terceiro setor, você depende de doações, o que é perigoso se você não está financiando do seu próprio bolso.
Por isso, sua receita não depende inteiramente do seu desempenho, mas de quanto alguém está disposto a te dar. Ou seja, você depende dessa pessoa ter dinheiro para investir e acreditar que você é um “bom investimento”. Como você não vive sem essas doações sua sobrevivência é muito frágil. Em diversos casos vemos ONGs fazendo vista grossa para empresas que realmente faziam mal, ou criando conflito em um assunto que já deveria ter encerrado em favor de quem o financia, e isso é fruto desse incentivo perverso. Se a empresa X financia sua existência, você vai condenar algum projeto ilícito deles? Isso pode custar a vida da sua ONG.
Apesar de acreditar que a maioria das ONGs sejam honestas, e que o maior problema seja a dependência financeira, é inegável a informalidade e não cobrança apresentada no segmento. Só para você ter noção, no Brasil mais de 50% do financiamento das ONGs é feito pelo governo, o que as torna qualquer coisa menos “organizações não-governamentais”. Não vemos nem entrar nesses pormenores para não virar um debate político…
Além do já exposto, as ONGs são menos atraentes para os jovens pela falta de incentivo financeiro. Apesar de não acreditar que dinheiro seja um fator muito relevante no trabalho, os jovens tem esse paradigma (afinal ele é ensinado em casa, escolas, faculdades e etc), e portanto, nas suas primeiras experiências procurará algo que lhe dê retorno financeiro. Com isso os grandes talentos acabam no mercado financeiro otimizando ações e os “estranhos” vão dar aula na escola ao lado da sua casa.
Principalmente por esses motivos, as ONGs acabaram. Infelizmente elas lutam pela sustentabilidade do mundo mas, em si, não são autossutentáveis. Irônico, não?
Solução: Negócios Sociais
Para substituir tanto as ONGs quanto boa parte das “empresas normais”, surgiram as empresas sociais.
“Entre ganhar dinheiro e fazer a diferença no mundo, fique com os dois.”
Sugiro fortemente que assistam o vídeo, pois ele fala mais do que 1.000 palavras minhas!
Embora haja grande discussão em torno do que é exatamente um negócio social, todas as definições apontam para 2 características fundamentais: é uma empresa que tem como meta gerar impacto positivo na sociedade, e é autossustentável financeiramente. (recomendo que você releia a parte em negrito!)
Para facilitar a compreensão dos negócios sociais, três exemplos fantásticos!
1. 1298
A 1298 (nome e telefone da empresa) é um dos 3 negócios de ambulância na Índia e o primeiro social. Como eles funcionam?
Eles cobram em cima do preço do hospital que você vai. Você é um mendigo e vai para um hospital público? Beleza, é de graça (na verdade você paga quanto quiser). Você é rico e vai para o melhor hospital da cidade? Vai pagar caro!
Em 2007 eles tinham 10 ambulâncias, o último dado que consegui levantar foi que eles tem 460 agora, e esperam dispor de 1.000 viaturas em 2012, atendendo milhões de pessoas.
Detalhe: eles são tão bons que chegaram em TODAS as ocorrências desde 2007 antes da imprensa, polícia e bombeiros.
Resumo: eles salvam vidas, tornando o serviço deles acessível a qualquer um e ganham dinheiro no processo!
Obs: o fundador dessa empresa se formou em direito e abriu um novo negócio, cujo objetivo é acabar com a corrupção na Índia. Ele atende pessoas que estão sendo extorquidas e ganha em cima da porcentagem do valor da propina que ele consegue, através da lei, anular. Será que ele é um gênio?
2. CIES
Para quem acha que no Brasil tudo é ruim, utilizem o google, boas fontes e troque de amigos! O pessoal do CIES é genial, inclusive tive o prazer de conhecer o CEO que é um homem fantástico, muito consciente que me ensinou muito em pouco tempo.
Eles são um “hospital” móvel que trabalha junto ao governo rodando o Brasil aonde existe maior demanda por algum exame específico. Esse caminhão-hospital tem uma estrutura flexível, que comporta diversos tipos diferentes de máquinas, portanto em uma semana eles podem estar realizando mamografias no Ceará e na semana seguinte, exame de sangue na Bahia.
Como eles ganham dinheiro? O governo é cliente (importante diferenciar doador de cliente!) e paga pelo serviço.
3. Sopro de Luz
Na mesma ocasião que conheci o CEO da CIES, conheci o empreendedor que está montando uma empresa chamada Sopro de Luz. Eles fazem geradores com cano de PVC que conseguem alimentar uma casa humilde de energia. Com isso, a pessoa de baixa renda e/ou que vivem em áreas sem energia, geram sozinhos o que precisam, aumentando a renda familiar (já que pode trabalhar à noite, entre outras coisas), e a qualidade de vida local.
Como é uma empresa social, seu resultado não será medido financeiramente, mas sim por MW que gerou, número de famílias que ajudou ou outra forma dessas. O importante e que o difere de uma ONG é que ele não dá o sistema para a pessoa, ele VENDE por um preço acessível, tem lucro no processo (mesmo se remunerando) e reinveste esse lucro no crescimento do negócio.
Quando tudo começou
Os Professores C.K. Prahalad e Stuart Hart escreveram o livro “Riqueza na Base da Pirâmide” em 1998, primeiro texto acadêmico que mostrou a GRANDE oportunidade de negócio que é atingir esse público que vive com baixíssima renda e, portanto, poder de consumo. Eles advogam que é necessário re-pensar modelos de negócio, utilizar a tecnologia como alavanca e, de alguma forma, atingir esse público não-consumidor.
Ou seja, esse não é um papinho “vamos salvar o mundo” e nem uma coisa que surgiu da minha cabeça. Para quem não conhece, temos ótimas referências como Muhammad Yunus, que já recebeu prêmio nobel da paz e inventou o micro-crédito, Jacqueline Novogratz, que veio do terceiro setor e está causando MUITO impacto positivo especialmente na África e Oriente Médio e tantos outros que estão ganhando dinheiro e fazendo a diferença no mundo ao mesmo tempo.
Mas e os negócios normais? Por que eles não funcionarão?!
Existem 2 motivos que me fazem crer que todos, mais cedo ou mais tarde, acabarão migrando para negócios sociais.
1. Os talentos de hoje são atraídos por empresas que possuem missões (sim, aquilo mesmo que ensinam nas aulas de administração mas nem cobram na prova) e valores alinhados com os seus, e que estejam fazendo alguma coisa de útil no mundo! Ganhar dinheiro por ganhar dinheiro é legal? Sim, por um tempo. Mas quando o cara é realmente competente e quer desafios, ele vai acabar entrando numa empresa que quer erradicar a pobreza no Brasil, não a que quer vender mais cervejas no ano que vem.
Obs: podemos discutir sobre isso nos comentários, e se vocês discordam, por favor me digam, ok?
2. (e essa é uma hipótese minha) Os hábitos do consumidor mudaram muito nos últimos anos e mudará cada vez mais e exponencialmente mais rápido. Não foi há muito tempo atrás que só tínhamos o carro preto da Ford para escolher. Depois surgiram outras marcas, o que gerou a opção de compra. Os valores utilizados para a tomada de decisão do cliente naquela época, na minha opinião, já não são mais os mesmos. As pessoas (quando informadas) sabem que o tênis da Nike pode ter sido feito por uma criança escrava, por isso quando surgir uma empresa que garante que o sapato é feito por um trabalhador bem pago, bem cuidado e feliz, que está botando o filho na escola por conta de você, acredito que a decisão será de compra desse produto. Existem céticos que dizem que não, que o “povo vai sempre optar por preço e, portanto, haverão sempre as empresas exploradoras.” Acredito que se o consumidor não mudar, as leis mudarão e já existe pressão desde a ONU até ativistas, empreendedores e outros, para se botar um preço na emissão de carbono, ou medir e precificar a qualidade de trabalho do seu funionário. Dessa forma, o produto feito com menos “carinho” para com o mundo será o mais caro, tornando os negócios sociais os mais eficientes economicamente nesse cenário.
Resumo: os grandes talentos estarão buscando desafios de verdade e não só ficar vendo numerozinho em planilha subir, o consumidor vai cobrar do empresário atitudes cada vez mais sociais e, por fim, o sistema econômico pode mudar de diversas formas nos próximos anos, dependendo de qual cartel perder poder antes.
Gostaria de encerrar esse post dizendo que esse tema nos interessa muito na LUZ, inclusive ministraremos um curso para auxiliar as ONGs a tornarem seus negócios rentáveis. Por isso seria um enorme prazer poder tirar suas dúvidas com relação ao tópico e, inclusive, explorá-lo mais a fundo, já que hoje dei apenas uma pincelada geral.
O que eu quero saber é: você gostou? Entendeu? Tem outros exemplos legais? Do que você discorda?
Compartilhe esse conhecimento! É importante que haja discussão em cima desses assuntos importantes, que moldam fortemente a “sociedade” (forma como vivemos e nos relacionamos).
Acredite: é possível ganhar dinheiro e fazer a diferença com um modelo de negócios inteligente!
Obs: dedico o post especialmente ao Rafael, que pediu para que escrevessemos sobre o terceiro setor. Minha opinião sobre ele é: não deve existir! Muito obrigado pela sugestão de tema!
Forte abraço.
Dia após dia, estamos mudando o mundo!
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